quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Gêneros Literários


GÊNEROS LITERÁRIOS

            Forma e conteúdo: Todo texto literário apresenta dois planos essenciais: o plano da forma e do conteúdo. No primeiro, temos os aspectos que envolvem a construção do texto, ou seja, o vocabulário, a sintaxe, a sonoridade, as imagens, a disposição das palavras no papel; no segundo, temos as ideias. Portanto, enquanto a forma envolve os aspectos linguísticos e gráficos do texto, o conteúdo envolve os significados do texto e suas relações com o mundo. Apesar dessa divisão, ambos os planos atuam juntos no texto literário, e uma alteração num dos planos implica alteração no outro.
            De acordo com a forma que os textos podem assumir, eles costumam ser organizados em dois grandes grupos: os textos em verso e os textos em prosa.
            Além dessa divisão, há outras classificações que procuram organizar e hierarquizar os textos literários. A mais antiga delas, e que ainda hoje é considerada, baseia-se na obra Arte Poética, de Aristóteles. De acordo com essa concepção clássica, há três gêneros literários: lírico, épico e dramático.
·         Gênero Lírico: É certo tipo de texto no qual um eu-lírico (a voz que fala no poema, que nem sempre corresponde à do autor) exprime suas emoções, ideias e impressões em face do mundo exterior. Normalmente, os pronomes e os verbos estão em primeira pessoa e há o predomínio da função emotiva da linguagem. Observe o lirismo destes versos:
"Ardo em desejo na tarde que arde!
Oh, como é belo dentro de mim
Teu corpo de ouro no fim de tarde:
Teu corpo que arde dentro de mim
Que ardo contigo no fim da tarde"
                         (Manuel Bandeira)
“Nada ficou no lugar
Eu quero quebrar essas xícaras
Eu vou enganar o diabo
Eu quero acordar sua família...
Eu vou escrever no seu muro
E violentar o seu gosto”
                 (Adriana Calcanhoto)
      

            Não confunda, porém, o eu-lírico com o próprio poeta. Aprenda com Fernando Pessoa que:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.

Ou seja, as emoções e sentimentos expressos num poema lírico são filtrados pelo poeta e recriados através da linguagem. Por isso, não é correto dizer: “O poeta fala de  sua tristeza”. É mais exato e próprio afirmar: “O eu-lírico fala de sua tristeza”.

No gênero lírico, “o que interesse é a emoção representada. A natureza, o mundo exterior, pode aparecer como símbolo de um estado de alma, de um sentimento qualquer”.

            “Os poemas líricos popularizaram-se tanto através do tempo que, para a maioria das pessoas, tornaram-se praticamente sinônimo de poesia. Isto é, quando se pensa em poema, pensa-se em poema lírico.

            “No entanto, lirismo – sentimento lírico – não se encontra apenas em poemas.(...) Há lirismo num conto, num romance, numa foto. O lirismo destaca-se em todas as formas de linguagem em que predomine o caráter emotivo da mensagem, até mesmo em obras onde não se apresente um eu-poético. Portanto, pode haver momentos de lirismo em criações de gênero épico, dramático ou narrativo.”

·         Gênero Épico: Nesse gênero, há presença de um narrador que fundamentalmente conta a história passada de terceiros. Isso implica certo distanciamento entre o narrador e o assunto tratado, coisa que não ocorre no gênero lírico. Os verbos e so pronomes quase sempre estão na terceira pessoa, porque se trata “dele” ou “deles”. Além disso, os textos épicos pressupões a presença de um ouvinte ou de uma plateia, que estariam escutando o narrador.

Os textos épicos são geralmente longos e narram histórias de um povo ou uma nação, envolvendo aventuras, guerras, viagens, gestos históricos, etc. Normalmente apresentam um tom de exaltação, isto é, de valorização de seus heróis e seus feitos.

Os poemas épicos entitulam-se epopeias (epos = verso + poieô = faço). Abaixo, um exemplo de epopeia:

“Cessem do sábio grego e do troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre lusitano,
A quem Netuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.”

(Camões)
·         Gênero Dramático: Trata-se do texto escrito para ser encenado no teatro. Nesse tipo de texto, não há um narrador contando a história. Ela “acontece” no palco, ou seja, é representada por atores que assumem os papéis das personagens. Todo o texto se desenrola a partir de diálogos, obrigando a uma sequência rigorosa das cenas e de suas relações de causa e consequência.

Quando o texto literário é encenado, a linguagem verbal combina-se com não-verbal (gestos, expressões fisionômicas, etc.).

Existem vários tipos de textos pertencentes ao gênero dramático:

 - a tragédia: De origem clássica, seu objetivo principal era inspirar medo e compaixão aos que a assistiam, através da exposição de cenas de grandes feitos de virtude ou de crime, além de desgraças e infortúnios, castigos e traições. Acreditava-se que, por meio da tragédia, se “purificavam” os sentimentos;

- a comédia: Tem sua origem nas festas de honra ao deus Dionísio (Baco); é voltada a provocar riso através de contrastes. Tem por objetivo criticar o comportamento humano através do ridículo;

- a tragicomédia: mistura da tragédia e da comédia, em que ocorrem acontecimentos tristes, mas o desfecho é feliz;

- o drama: Espécie de modernização da tragicomédia, em que se alternam momentos de alegria e de dor;

- a farsa: Representação mais leve, em que se ridicularizam costumes ou elementos da sociedade,  apelando para a caricatura;

- o auto: composição dramática, com argumento geralmente bíblico, burlesco[1] e também alegórico[2]. O auto constitui uma das formas mais populares do antigo teatro português.

No entanto, há ainda a concepção moderna de arte, que substitui o gênero épico pelo narrativo, de caráter mais amplo.

·         Gênero Narrativo: Na atualidade, passou-se a chamar de gênero narrativo ao conjunto de obras em que há narrador, personagens e uma sequência de fatos. Abrange várias modalidades de textos em que aparecem os seguintes elementos:

§  Foco narrativo: presença de um elemento que relata a história como participante (narrativa em 1ª pessoa), ou como observador (narrativa em 3ª pessoa). Alguns autores observam, ainda, que o narrador pode ser também onisciente, quando, apesar de não participar diretamente da história, conhece até mesmo o pensamento das personagens.

§  Enredo: É a sequência de fatos, podendo seguir a ordem cronológica em que eles ocorrem (sucessão temporal dos fatos), ou a ordem psicológica (sucessão de fatos segundo as lembranças ou evocações das personagens, apresentando, muitas vezes, flashbacks, ou volta ao passado).

§  Personagens: Seres criados pelo autor com características físicas e psicológicas determinadas, na maioria das vezes.

§  Tempo e Espaço: O momento e o local em que os fatos são narrados e onde se desenrolam.

§  Conflito: Situação de tensão entre elementos da narrativa.

§  Clímax: A situação criada pelo narrado vai progressivamente aumentando sua dramaticidade até que chega ao clímax, o ponto máximo.

§  Desfecho: Momento que sucede o clímax, no qual se finaliza a história e cada personagem se encaminha para o seu “destino”.

Ao gênero narrativo pertencem as seguintes modalidades de textos:


o    O Romance: Foi principalmente por influência francesa que em Portugal e no Brasil se passou a dar o nome de Romance ao gênero que os escritores portugueses denominavam “novela”, antes do século XIX.

Somente nas narrativas modernas é que o romance alcançou seu pleno desenvolvimento. Caracteriza-se por conter:

           - Narrativa longa;

           - Enredo complexo;

           - Um ou vários conflitos das personagens.

Conforme o conteúdo, os romances classificam-se em históricos, policiais, regionais, de costumes, etc.

o    A Novela: A novela diferencia-se do romance não pelo número de páginas, mas pela técnica de composição. A novela nada mais é do que a condensação dos elementos que formam o romance:

- Diálogos breves;

- Sucessão de conflitos, vistos com mais superficialidade do que no romance; a um conflito principal agregam-se outros de menor importância e que com ele não têm relação direta;

- O enredo não traz complexidade;

- O tempo e o espaço estão conjugados dentro da estrutura novelesca;

- As narrações e as descrições são condensadas, encaminhando-se logo para o desenlace da história.

o    O Conto: O conto, por ser breve e simples narrativa é um gênero muito cultivado. Apresenta as seguintes características:

- Tem mais brevidade dramática do que o romance e a novela;

- Poucos personagens intervêm na narrativa;

- Cenários limitados, espaço restrito;

- Espaço de tempo curto;

- Diálogos sugestivos que permitem mostrar os conflitos entre as personagens;

- A ação é reduzida ao essencial, há um só conflito;

- A narrativa é objetiva; por vezes a descrição não aparece.

o    A Crônica: É um gênero literário que se originou no século XIX. Este gênero trata de fatos do dia a dia. Quando há uma narrativa, a ação é rápida, sintética.

Há vários tipos de crônicas: humorísticas ou melancólicas; outras primam pela crítica social e algumas apresentam, ainda, profundos ensinamentos sobre o comportamento.

o    Outros Gêneros: O apólogo e a fábula foram gêneros narrativos muito cultivados pelos clássicos. Vejamos as características desses gêneros:

No apólogo:

- as personagens são seres inanimados;

- tem por objetivo um ensinamento moral.

Na fábula:

- a história envolve a vida de animais;
- apresenta, como o apólogo, uma lição de moral.

Antes do Romantismo, a fábula era um gênero poético.


[1] Cômico, grotesco, ridículo.
[2] Obra artística ou literária, que oferece uma coisa para sugerir outra.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


CASTRO, Maria da Conceição. Língua e Literatura. Vol. 1. 5ª Ed. – São Paulo: Editora Saraiva, 1998.

PAULINO, Graça. Literatura: participação e prazer. Ed. ver. e ampl. – São Paulo: FTD, 1988.

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